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Entrevista com Dra. Anna Elisa de Villemor-Amaral

14/07/2011

Por Rodolfo A. M. Ambiel

O Boletim Avaliação em Foco conversou com a Dra. Anna Elisa de Villemor-Amaral a respeito de sua carreira, como psicóloga clínica, pesquisadora e docente na área da Avaliação Psicológica. Ela nos contou como sua trajetória pessoal e familiar influenciou diretamente suas escolhas profissionais, com foco nas técnicas projetivas. Falou também sobre suas expectativas a respeito do Ano da Avaliação Psicológica no Brasil: “Eu gostaria mesmo é que isso contribuísse para romper espessas barreiras de preconceito que se notam dentro da própria Psicologia”, disse a professora da Universidade São Francisco e da PUC-SP.

§ Como foi sua inserção na psicologia e qual o papel que a avaliação psicológica teve ao longo de sua formação?

Acho que tive uma história de escolha profissional atípica, porque tinha um pai psicólogo, bastante engajado na sua época. Além disso, minha mãe era bibliotecária e tradutora, tendo traduzido, por exemplo, o livro original do Rorschach, “Psicodiagnóstico”, para o português. Então, foi assim: nasci e cresci imersa numa atmosfera de Psicologia. Minha casa era frequentada por psicólogos, deste e de outros países, havia uma linguagem e uma maneira de ver o mundo que fui naturalmente assimilando. Aliado a isso, ciências humanas e filosofia sempre me interessaram. Na escola, eram minhas disciplinas favoritas e a Antropologia, Ciências Sociais e História eram minhas outras opções de carreira, além da Psicologia. Mas percebi que gostava do contato direto com as pessoas, me interessava por elas de tal forma que, ainda criança, tinha certa mania, certamente indelicada, de ficar observando os outros em lugares públicos, às vezes por tanto tempo que era repreendida pela falta de educação! Quanto à avaliação psicológica, ela estava inserida nesse contexto e ainda na Faculdade comecei a frequentar cursos de extensão de Rorschach e Psicodiagnóstico infantil. Aprendi que boas intervenções dependem de boas avaliações.

§ As técnicas projetivas são seu foco de pesquisa. No seu currículo, verificam-se pesquisas principalmente com Rorschach, Zulliger e Pirâmides Coloridas de Pfister, bem como textos em que você discute criticamente a questão da cientificidade dessas técnicas. Como você avalia a situação atual das técnicas projetivas no Brasil?

Durante muito tempo, as técnicas projetivas se respaldaram principalmente nas teorias psicanalíticas, e os que tinham formação psicanalítica se sentiam seguros com este respaldo, aliado à observação e raciocínio clínicos. Mas o mundo mudou, a ciência evoluiu e as exigências da comunidade científica e do público também cresceram. Além disso, o uso destas técnicas por vezes era, e é, abusivo e, em muitos casos, sequer é respeitada a sólida ancoragem na teoria ou na experiência clínica. Claro que o veto ao uso dos instrumentos que não demonstravam claramente sua validade foi bastante traumático na época e os psicólogos clínicos não esperavam ver questionados seus apreciados métodos. Mas embora traumático, o resultado foi bastante salutar, pois muitos estudos foram produzidos, muitos estão em andamento e cada vez percebe-se mais o quanto ainda há para ser feito.

§ O CFP está promovendo 2011 como o Ano da Avaliação Psicológica. Que tipo de mudança você acha que essa ação pode promover e que tipo de mudança você gostaria que isso provocasse?

Achei ótimo quando soube da notícia! Isso vai estimular eventos, matérias na mídia, maior visibilidade e também maior divulgação do que é avaliação psicológica e sua utilidade em diversas circunstâncias. Mas o que eu gostaria mesmo é que isso contribuísse para romper espessas barreiras de preconceito que se notam dentro da própria Psicologia e que entravam o desenvolvimento da avaliação psicológica ou seus usos potenciais. A desinformação dos psicólogos infelizmente é grande a esse respeito, os cursos de Psicologia não ajudam na medida em que reduzem substancialmente a carga horária dedicada a essas disciplinas, e tudo isso precisa ser revertido. Talvez a visibilidade que se terá este ano contribua um pouco para melhorar esse quadro.

§ Em sua opinião, de psicóloga e pesquisadora ligada à avaliação psicológica, passada quase uma década da resolução 02/2003, o que é necessário fazer agora para que a avaliação psicológica brasileira progrida ainda mais?

Talvez já tenha respondido isso nas questões anteriores. A resolução 02/2003, embora traumática, trouxe bons frutos, mas a desinformação e a má formação dos profissionais ainda é um problema grave que precisa ser combatido. Portanto, não basta termos bons instrumentos, temos que melhorar em muito a formação e capacitação profissional. Mas isso exigirá mudanças no ensino da Psicologia, na grade curricular de muitos cursos, o que não é fácil, nem tanto por questões burocráticas, mas certamente por pressões ideológicas equivocadamente contrárias às disciplinas ligadas ao ensino da avaliação. Há uma ideia muito forte de que avaliação psicológica discrimina, exclui, produz preconceitos e injustiças. Ora, é claro que isso não é um problema da avaliação e sim do mau uso que se faz dela. A deficiência no ensino é o que pode agravar essa situação.

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