Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica
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A área da psicologia do trânsito
» Avaliação em Foco - Entrevista com Especialista
23/11/2012

Por Rodolfo A. M. Ambiel

A área da psicologia do trânsito, frequentemente, tem sua atuação reduzida à avaliação psicológica enquanto prática dos psicólogos. Contudo, mesmo com uma atuação tão focada, há ainda dúvidas sobre a eficácia do processo e de sua tradução em melhores condições de trânsito. Buscando refletir sobre essa e outras importantes questões relacionadas à psicologia do trânsito, o convidado para esta sessão Entrevista da Avaliação em Foco é o Prof. Fábio de Cristo.

1.     Como se deu sua inserção na área da psicologia do trânsito?

Foi durante a minha graduação, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. No segundo ano de curso, 2002, foi oferecida uma disciplina complementar sobre psicologia do trânsito, com o professor José Edson de Moura, a quem sou muito grato pela oportunidade. Eu estava muito curioso para saber o que faria um psicólogo neste contexto; nunca havia passado pela minha cabeça que o comportamento no trânsito poderia ser tão interessante. O assunto me cativou desde as primeiras aulas. Naquele momento, tomei consciência que existia “vida” além da psicologia clínica, organizacional e escolar. Depois, eu fiz o estágio curricular obrigatório no ano de 2005, no Departamento de Trânsito – DETRAN, o primeiro desta natureza no Rio Grande do Norte, e segui o percurso acadêmico (publicar, dar aulas e cursos), sempre buscando aperfeiçoar a minha formação (especialização, mestrado, doutorado e participações em congressos) tendo o trânsito como principal campo de estudos.

2.     Como você avalia a formação em psicologia do trânsito no Brasil?

De modo geral, na graduação, ela é praticamente inexistente, infelizmente. Apenas em algumas poucas instituições existe a disciplina psicologia do trânsito ou disciplinas que contemplam discussões sobre trânsito e transporte. Conheço algumas delas a partir de convites de alunos para que eu responda questionários sobre o que é a área, qual o papel do psicólogo etc., o que sempre faço com prazer. Geralmente, estes alunos são estimulados pelos professores de disciplinas como “Psicologia: ciência e profissão”, para que eles conheçam as várias áreas. Isso é muito bom, mas é preciso fazer mais para cativar os alunos. Quanto aos estágios supervisionados, a quantidade de estagiários é muito baixa comparada a outras áreas tradicionais da psicologia.

No caso da pós-graduação lato sensu (especialização), as oportunidades de formação ampliaram-se nos últimos cinco anos, mas não por uma necessidade reconhecida pelos profissionais, e sim por uma obrigatoriedade do Conselho Nacional de Trânsito – CONTRAN, por meio da resolução n° 267/2008. Esta resolução estabelece que, a partir de 2013, só poderão realizar avaliação psicológica de motoristas os profissionais com o título de especialista em psicologia do trânsito. Penso que, de maneira ideal, ninguém deveria ser obrigado a ser especialista ou a se atualizar para trabalhar, pois entendo que isto é um dever de todo o profissional, inclusive o psicólogo. As pessoas deviam buscar as especializações por acharem necessário, por tentar suprir algumas deficiências, enfim, para buscar ao máximo prestar um serviço útil e de qualidade à população. Mas, como nem todos realizam este dever, a “obrigação” entra em cena a partir dos órgãos fiscalizadores, reguladores.

Sobre os conteúdos, algumas especializações em psicologia do trânsito não contemplam discussões importantes da área ou atividades que tornam o profissional mais preparado para construir suas respostas (políticas, teorias específicas da área, métodos de pesquisa), concentrando suas disciplinas no processo de avaliação psicológica, especialmente na testagem. Não se pode perder de vista a formação generalista do especialista; afinal, o psicólogo será especialista em psicologia do trânsito, e não em avaliação psicológica, embora estes conhecimentos sejam muito importantes. As especializações têm um grande papel que não pode ser restrito. Temos que saber construir respostas às perguntas que nos são feitas pelo mercado, por exemplo, quando um empresário do setor de transporte nos questiona por que seus funcionários estão estressados ou quando o comandante do batalhão de trânsito pergunta por que os motoristas reagem com agressividade à abordagem dos seus agentes numa blitz. Por isso, eu argumento que as especializações devem ter como foco dar ferramentas aos psicólogos para construir suas respostas, como consultores, de modo que ele possa ajudar a ampliar o campo profissional que ainda está muito fechado ao mercado das clínicas.

Outro ponto que gostaria de ressaltar é a falta de vocação de muitos psicólogos para trabalhar no trânsito. Em geral, quando se pergunta aos alunos de especialização porque estão ali, a maior parte responde que é pela obrigatoriedade que mencionei. E quando perguntamos por que escolheram a área, outra parte argumenta que foi pela oportunidade de complementar a renda, pois trabalham em outros lugares como atividades centrais. Mas, como desenvolver a área sem vocação? Isto precisa mudar, é necessário inspirar os escassos alunos que chegam à especialização querendo fazer coisas diferentes. Passada esta “requalificação” dos profissionais que já trabalham no trânsito, daqui a alguns anos, talvez os alunos que têm vocação possam ser a maioria.

Quanto à pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado), a quantidade de psicólogos interessados é muito baixa, embora o Brasil tenha boas instituições e pesquisadores capazes de oferecer uma formação de qualidade aos interessados, desde a perspectiva da psicologia ambiental, passando pela psicologia social, experimental até a avaliação psicológica. De fato, é durante esta formação que as pesquisas que temos hoje têm sido produzidas.

3.     Nos últimos anos, você publicou alguns artigos nos quais se percebe que os estudos sobre avaliação psicológica na área do trânsito são escassos no Brasil, a despeito de ser essa a principal atividade do profissional da área. A que você atribui essa situação?

No momento atual, é uma questão básica: falta gente interessada para fazer as pesquisas. Disse anteriormente que se discute pouco psicologia do trânsito na graduação. É natural, portanto, que muitos futuros psicólogos não escolham esta área para trabalhar ou pesquisar, afinal, não se pode querer o que não se conhece.

No que se refere aos psicólogos que já trabalham na área, por sua vez, especificamente na avaliação de motoristas, muitos não se sentem qualificados para fazer pesquisa, dizem que só pode fazer quem é pesquisador; outros dizem que não tem tempo, pois precisam “trabalhar” ou “sobreviver”, como já ouvi, e, portanto, não consideram a pesquisa como um trabalho em si; outros, ainda, dizem que não são pagos para fazer pesquisas, mas para avaliar. E assim, em geral, os psicólogos do trânsito têm se dedicado muito mais à profissão do que à ciência que fundamenta a sua prática.

Mas o volume de pesquisas tem aumentado, notadamente sobre a construção e a busca de evidências de validade de novos testes, o que é muito importante para o psicólogo ter alternativas confiáveis. Como desafio para a avaliação psicológica, é preciso melhorar não só na quantidade, mas na qualidade das pesquisas, especialmente seus delineamentos. Devemos ser mais ousados do que tentar aplicar testes em 100 motoristas e ver se existem diferenças entre um grupo que se acidentou e outro que não se acidentou. Os acidentes possuem causas multifatoriais que é necessário considerar, exigindo estratégias mais elaboradas para testar nossos instrumentos. Embora sejam importantes tais estudos, penso que temos de ir além pensando em uma escala um pouco maior, como, por exemplo, trabalhar com bancos de dados com vários participantes de pesquisa por meio de convênios com DETRANS e clínicas. Dessa forma, poderemos acompanhar os motoristas profissionais até o momento da sua reavaliação ou utilizar os dados das avaliações anteriores como indicadores, e analisar se houve alteração que mereça ser aprofundada. Mas sei que é difícil por em prática iniciativas como esta.

4.     Com base nos estudos que você tem conduzido e em outros trabalhos disponíveis na literatura nacional, há evidências de que candidatos aptos e inaptos no processo de obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) apresentam características psicológicas diferentes? Quais são os construtos psicológicos mais relevantes para tal distinção?

Uma resposta definitiva a esta pergunta é incerta; ou seja, no momento atual, existem poucas evidências de que esta contribuição é efetiva no Brasil. Os poucos estudos realizados anteriormente não encontraram evidências significativas ou sistemáticas relacionando os aspectos psicológicos (por exemplo, inteligência e personalidade) medidos nos testes e a segurança no trânsito, considerando os acidentes ou as infrações como critério. Tal contribuição, portanto, ainda precisa ser demonstrada.

Existem algumas razões para a dificuldade de produzirmos tais evidências, associadas à medida do critério de segurança (acidentes e infrações). Estas medidas podem ser obtidas a partir do autorrelato, ou seja, o participante diz quantas vezes se envolveu num acidente; contudo, as respostas podem não refletir o que aconteceu realmente, seja por esquecimento ou por que a pessoa não quer admitir uma coisa errada.

Dificuldade semelhante ocorre quando os registros são feitos a partir dos órgãos de trânsito. Nem sempre estes registros são feitos, seja por que a polícia não foi chamada ou por que o motorista conseguiu fazer com que o guarda não registrasse a ocorrência. Outras dificuldades são relacionadas à qualidade dos dados produzidos pelo psicólogo, ou seja, nem sempre os psicólogos fazem seu trabalho de avaliação e correção dos testes bem feitos. Em nossas pesquisas, tivemos dificuldade de encontrar instrumentos corrigidos, especialmente os de personalidade. Com a prática, alguns psicólogos “economizam tempo” não corrigindo os testes, apenas dando uma “olhada rápida” para ver se “está tudo ok”. Como produzir evidências de contribuição dos testes para a segurança com medidas não confiáveis ou sem qualidade? Difícil. Em suma, a dificuldade vai além do teste em si, inclui uma dificuldade metodológica e técnica do psicólogo que produz os dados.

5.     Uma de suas áreas de estudo é a psicologia ambiental. É possível se pensar os conceitos dessa disciplina no contexto da avaliação psicológica pericial para o trânsito?

Sim. A psicologia ambiental estuda a relação recíproca entre a pessoa e o seu ambiente. Nesse sentido, ela pode ajudar o perito pelo menos de duas maneiras. Primeira, a partir de uma análise do que pode prejudicar o resultado do seu candidato no que se refere aos elementos ambientais da sala de testagem, algumas delas associadas às condições de aplicação: iluminação, temperatura, quantidade de pessoas num determinado ambiente (densidade) etc. Segundo, estabelecendo limites ao trabalho do perito; isto por que alguns comportamentos no trânsito poderão ser produtos da interação das pessoas com aquele ambiente físico que ele está vivenciando, e não por causa do seu raciocínio lógico, da sua atenção, memória ou personalidade. Um motorista poderá sentir-se motivado a acelerar pela característica da via larga e reta, e não por que ele tem uma característica de personalidade agressiva ou de busca por sensações. Assim, nem tudo está somente no indivíduo, e assim o perito poderá não identificar isso nos testes, num ambiente de testagem que é bastante controlado.

Penso que a psicologia ambiental também pode ser útil ao psicólogo do trânsito que quer estudar o comportamento in loco. Esta é uma característica daquela área, isto é, ver o que acontece no mundo real, fora do laboratório, para tentar intervir com proveito. A título de exemplo, se o psicólogo ambiental quer entender o comportamento de velocidade do motorista de ônibus, é mais provável que ele entre no veículo e acompanhe as viagens do motorista do que aplique testes psicológicos. Esta maneira de fazer pesquisa pode ser inspiradora para os psicólogos do trânsito.

6.     Recentemente, você publicou um livro chamado “Psicologia e trânsito - Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores”. Como você vê a questão da educação para o trânsito? Você considera que há espaço para psicólogos do trânsito para atuações além da avaliação psicológica pericial?

A educação para o trânsito no Brasil está focada mais na memorização das leis – o que é certo ou errado – do que na discussão e reflexão dos fundamentos delas ou nas consequências potencias, para si e para outros, de não cumpri-las. Saber o que significa, por exemplo, aquela placa com “um triângulo de cabeça pra baixo” (dê a preferência) é importante, mas o trânsito é mais complexo do que decorar normas, saber ligar/desligar o carro e passar a marcha. As relações no trânsito dizem respeito às relações humanas e consigo. No contexto europeu, por exemplo, está sendo discutida a formação do motorista como uma formação para a vida, e a psicologia está ajudando nisso decisivamente.

Costumo dizer que o psicólogo tem que aprender a traduzir o “psicologuês” para o “português”, de modo que as pessoas se beneficiem nos nossos resultados de pesquisa. No livro, busquei abordar conceitos e teorias da psicologia que podem ajudar o público geral a refletir sobre sua própria conduta, abrindo espaço para mudanças. Os textos focam nos conteúdos educativos e reflexivos da mensagem, não se detendo aos aspectos sensacionalistas do trânsito, o que é muito comum. Busquei uma abordagem psicológica dos problemas, o que considero um modo interessante para tentar estimular o leitor a pensar e a decidir por si mesmo.

Sem dúvida, existem outros espaços. Certa vez, o gerente de uma empresa me disse que há muito estava procurando, mas não encontrava, um psicólogo com formação sólida sobre comportamento no trânsito e educação no trânsito para integrar uma equipe para trabalhar na elaboração de cursos de formação e atualização para motoristas profissionais e instrutores de trânsito. Isto demonstra que os psicólogos não estão atentos às outras possibilidades além das clínicas. A própria academia é um desses espaços de trabalho, tanto fazendo pesquisas quanto dando aulas em especializações e cursos de atualização. Além disso, tenho conhecimento de psicólogos trabalhando em prefeituras, desenvolvendo estudos e intervenções para a promoção da cultura de segurança no trânsito; de psicólogos atuando em ONGs elaborando e desenvolvendo projetos sociais sobre comportamento no trânsito junto às instituições públicas. A consultoria também é um campo potencial pouco explorado, mas que depende muito da característica do psicólogo e de sua competência.

7.     Por fim, quais expectativas e perspectivas que você tem em relação à psicologia do trânsito no Brasil, especialmente no que toca à avaliação psicológica pericial?

Espero que daqui a alguns anos possamos operar uma mudança na área de trânsito como foi feita, por exemplo, na área organizacional e do trabalho. Na década de 1980, esta área era considerada o “lobo mau”[1] da psicologia, que estava a serviço do patrão na exploração dos seus funcionários. Hoje em dia, esta é uma questão superada e os trabalhos destes psicólogos contribuem para além do recrutamento, seleção e treinamento, suas atividades tradicionais, contribuindo também com as atividades estratégicas das empresas e em prol dos seus funcionários.

Este movimento, de repensar a psicologia do trânsito, também aconteceu na década de 1980, mas, ao que parece, ainda não terminou. Na mesma linha dos contos de fadas, penso que a psicologia do trânsito é atualmente o “patinho feito” da psicologia, ou seja, é aquela área que todo mundo critica e, por vezes, exclui. Espero que possamos torná-la um cisne, consolidando atividades além do papel tradicional de avaliar pessoas para a habilitação, sendo um belo exemplo de como contribuir estrategicamente para a harmonia no trânsito, mas sem esquecer o básico, pelo menos fazer o que já fazemos bem feito.

Créditos:Fábio de Cristo, doutorando e membro do Laboratório de Psicologia Ambiental (UnB). Administrador do Portal de Psicologia do Trânsito (www.portalpsitran.com.br) e coordenador da Rede Latino-Americana de Psicologia do Trânsito. Autor do livro Psicologia e trânsito - Reflexões para pais, educadores e (futuros) condutores.

[1]Codo, W. (1984). O papel do psicólogo na organização industrial (notas sobre o “lobo mau” em psicologia). In S. T. M. Lane & W. Codo (Orgs.), Psicologia social: O homem em movimento (pp. 195-202). São Paulo: Brasiliense.

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