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Nota técnica do CFP sobre a construção, adaptação e validação
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31/01/2013

Construção, adaptação e validação de instrumentos para pessoas com deficiência

Na construção e adaptação de testes psicológicos para indivíduos com deficiência, faz-se imprescindível  o  atendimento  aos  pressupostos  teóricos  e  técnicos  inerentes  ao  processo  de construção e adaptação de  instrumentos  sedimentados na  literatura científica da área. Contudo, alguns  aspectos  adicionais  devem  ser  observados  com  vistas  à  manutenção  da  qualidade psicométrica destes instrumentos:

1) Adaptar um  teste para pessoas com deficiência não se  resume em alterar um aspecto indistintamente  sem  avaliar  as  consequências  na  avaliação  psicológica  como  um  todo  e  nos resultados e procedimentos do próprio teste; 

2) O uso de certos tipos de adaptações pode modificar o construto que está sendo medido. Cita-se como exemplo medidas de compreensão escrita e oral; 

3)  É  condição  indispensável,  considerando  a  heterogeneidade  da  população  com deficiência,  o  conhecimento  profundo  sobre  o  público  ao  qual  o  teste  é  destinado,  o  tipo  de deficiência, e, como o público irá manusear os materiais do instrumento; e,

4)  A  equipe  de  desenvolvimento  ou  adaptação  deve  consultar  indivíduos  com  as deficiências  alvo  para  avaliar  o  impacto  das  adaptações  realizadas  em  relação  a  aspectos  de usabilidade,  acessibilidade,  clareza  das  tarefas,  entre  outros  aspectos.  Quando  possível,  a consulta a especialistas na área do construto ou a psicólogos que apresentam a deficiência para o qual o teste está sendo adaptado é recomendável.

No  tocante  à  adaptação,  ressalta-se  ainda  que  quaisquer  ajustes  nos  procedimentos padronizados  dos  testes  e  nos  seus  materiais  assumem  o  risco  de  causar  mudanças  nas características  dos  instrumentos  invalidando  os  resultados  obtidos. Assim  a  eficiência  de  uma adaptação para  indivíduos com deficiência só poderá ser comprovada por meio de estudos pela busca de  indicadores de precisão e evidência de validade do  teste adaptado. Dentre os métodos usados  para  verificar  o  efeito  das  adaptações  em  pessoas  com  e  sem  deficiência,  tem  grande relevância  a  investigação  da  ocorrência  de  função  diferencial  dos  itens  (DIF)  (Oliveira, Nuernberg & Nunes, 2013; Psychological Testing Centre & The British Psychological Society, 2007;  American  Educational  Research  Association,  American  Psychological  Association  & National Council on Measurement in Education, 1999).

A  construção  e  adaptação  dos  testes  psicológicos  para  os  indivíduos  com  deficiência configuram-se como atividades complexas que requerem, frequentemente, a utilização de várias modificações  e  alguns  recursos  adicionais,  tais  como  as  tecnologias  assistidas,  na  tentativa  de proporcionar  acessibilidade  aos materiais  dos  testes.  Em  auxílio  aos  desafios  existentes  neste processo  de  atendimento  à  diversidade  humana,  um  recurso  interessante  é  a  aplicação  do conceito de Desenho Universal.

Tal conceito busca proporcionar a máxima acessibilidade reduzindo o viés, pois permite pensar-se, desde o  início da construção ou mesmo na pós-construção, em  testes que possam ser flexíveis  a  acomodações  atendendo  a  uma  população  ampla,  incluindo  pessoas  com  e  sem deficiência.  As adaptações realizadas fazem parte de estudos prévios e são utilizadas quando há necessidade ou quando compõem o teste, independentemente do indivíduo que as utilize. Muitas modificações  utilizadas  nos  testes  que  aplicam  o  conceito  de  desenho  universal,  como  as  que aumentam  a  legibilidade  e  o  fazer  intuitivo  e  livre  de  complexidade  desnecessária,  produzem instrumentos  de  maior  qualidade  tanto  para  os  indivíduos  com  deficiência  quanto  sem deficiência.  Contudo  a  contribuição  do  desenho  universal  é  mais  evidente  para  os  testes utilizados  pelas  pessoas  com  deficiência,  pois  o  desenho  universal  permite  que  eles  possam beneficiar-se dos  instrumentos psicológicos de  forma  realmente  inclusiva  (Oliveira, Nuernberg & Nunes, 2013; Johnstone, 2003; Thompson, Johnstone & Thurlow, 2002).

Em síntese, não é recomendada qualquer adaptação sem prévio estudo. Nos casos em que o uso dos testes é inapropriado para as características individuais do avaliado, o psicólogo deverá proceder a avaliação com outros recursos reconhecidos pela Psicologia.

Referências:

American  Educational  Research  Association,  American  Psychological  Association,  National Council  on Measurement  in  Education  (1999).  Standards  for  educational  and  psychological testing. Washington, DC: Author.

Psychological Testing Centre & The British  Psychological  Society  (2007).  Visual  impairment and  psychometric  testing: Practical  advice  for  test  users managing  the  testing  of  people who have signt disabilities. Recuperado em março de 2011, de www.psychtesting.org.uk.

Johnstone, C.  J.  (2003). Improving  validity  of  large-scale  tests: Universal  design  and  student performance (Technical Report 37). Minneapolis, MN: University of Minnesota, National Center on  Educational  Outcomes.  Retrieved.  Recuperado  em  Agosto  de  2011,  de http://education.umn.edu/NCEO/OnlinePubs/Technical37.htm.

Thompson, S. J., Johnstone, C. J., & Thurlow, M. L. (2002). Universal design applied  to  large scale assessments  (Synthesis Report 44). Minneapolis, MN: University  of Minnesota, National Center  on  Educational  Outcomes.  Recuperado  em  Agosto  de  2011,  de http://www.cehd.umn.edu/nceo/onlinepubs/Synthesis44.html.

Oliveira, C. M. ; Nuernberg, A. H. & Nunes, C. H. S. S. (2013). A incorporação do Conceito de Desenho Universal na Avaliação Psicológica como promotora dos Direitos Humanos. Avaliação Psicológica (Impresso – Aceito para publicação).

 

Conselho Federal de Psicologia – CFP

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